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sexta-feira, 19 de março de 2010

Estão assassinando nosso folclore!


Ultimamente, com a violência nos oprimindo de todos os lados, tem havido um forte movimento por parte das escolas a fim de tentar encontrar as causas deste problema e erradicá-las.
A agressividade por parte de um grande número de jovens vem crescendo e os educadores se perguntam: por quê? Na verdade as respostas são várias e se estendem desde a convivência com os pais até os programas televisivos a que assistem.
O que fazer para tentar amenizar esse problema? Algumas escolas estão recorrendo a mudanças em letras de músicas, tirando marcas intrínsecas de personagens do folclore brasileiro - como o caso do Saci - causando uma transfiguração da cultura popular brasileira. Isso resolve?
Sinceramente, as crianças precisam refletir e conhecer a realidade dos personagens folclóricos, conhecer a história de cada um e entender o porquê dele ser delineado por certos traços que "hoje" são vistos com maus-olhos.
Se a educação - hoje - visa desenvolver uma criança com senso crítico e que não aceite as "verdades" simplesmente impostas, os educadores poderiam se valer desses personagens para instaurar em suas aulas uma reflexão sobre valores, ética, comportamento humano. É certo atirar o pau no gato? Use a música para um debate com as crianças, faça um julgamento em sala de aula, uma espécie de audiência onde haja defensoria, promotoria, juiz, etc.
O Saci, personagem tipicamente brasileiro vem ao encontro das ideias de combate ao fumo e vida saudável? Use-o a seu favor, recorra à história brasileira, índice de doenças causadas pelo cigarro há anos atrás, decorrentes da falta de informação a respeito, etc. Há uma infinidade de coisas que podem ser trabalhadas partindo desses "mau-exemplos" do nosso querido folclore. Será que as bruxas, os sacis, os monstros não podem virar aliados da educação? Eis aí um desafio aos professores brasileiros!
Negar o que é fato e que está inserido na nossa cultura há séculos é que não dá.

Agora fiquem com dois textos extraídos do Jornal Zero Hora desta semana. Ambos se relacionam a este artigo que escrevi.
Abraços!



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18 de março de 2010
ARTIGOS
A criança, as fadas e os monstros, por Luciane Falcão*
Por que será que ainda temos profissionais da área da infância que se questionam se devemos ou não contar as histórias infantis e incluir ou não os “monstros”?Por que será que estamos “evitando os monstros” ou querendo “fazer de conta” que eles não existem, suprimindo-os dos clássicos da literatura?O “faz de conta” faz parte de uma etapa do desenvolvimento infantil, etapa essa fundamental na estruturação psíquica da criança. Será que esses adultos ainda “fazem de conta” que a agressividade, a raiva e os sentimentos ligados a isso não existem? Precisam ser excluídos, extirpados da mente? Ou será que eles próprios ainda se assustam com esses sentimentos, sentindo-se incapazes de lidar com a agressão e a violência?O período da infância no qual o “faz de conta” está presente é o momento em que ela vivencia o mundo da fantasia. E o que é essa fantasia? É um treino, é uma brincadeira, é, literalmente, um “faz de conta” pelo qual ela poderá, aos poucos, viver aquilo que está dentro dela, do seu mundo interno, dos seus pensamentos. Viver isso através das brincadeiras, do faz de conta, das histórias infantis e, num dado momento, opa!!!, preciso voltar para a realidade!!! Neste momento, a criança passa a estruturar dentro de si algo que é fundamental no ser humano, a capacidade de discernir entre o que é o seu pensamento, a sua ideia, o “faz de conta” e o real. Sem isso, ela estará permanentemente fora da realidade e incapaz de lidar com as angústias e as frustrações que fazem parte de qualquer desenvolvimento. Há uma necessidade desse vaivém na vida psíquica da criança e nela, sim, a raiva, a agressão, o ódio estarão presentes.Então, o problema não é a raiva, o ódio, sentidos pela criança – amor/ódio, Eros/Thanatos, fazem parte do homem, da humanidade, de todos!!! –, o problema é como permitir à criança vivenciá-los sem destruir o outro na relação.Freud nos mostrou que há uma polaridade que rege a vida psíquica e a vida sociocultural do homem. O amor, Eros, liga; o ódio, Thanatos, destruição, desliga, dissocia, separa. Essas duas tendências vêm juntas. Seria mais esperançoso apostar na possibilidade de o homem reconhecer seus sentimentos, seus afetos e saber lidar com eles do que negar sua existência, e essa ideia precisa ser disseminada na nossa sociedade, nas creches, nas escolas, nas universidades, nos juizados.Paradoxos e ambivalências fazem parte do progresso e do desenvolvimento do indivíduo.Então, por que será que os educadores ainda se assustam com as histórias infantis e o que elas representam?Eu também me assusto quando penso que na nossa sociedade há uma incapacidade dos adultos para lidar com aquilo que faz parte do ser humano... Quais monstros as crianças precisam temer? Somente os que estão dentro do seu psíquico ou aqueles que são incapazes de ter instrumentos para enfrentá-los? Monstros e fadas sempre existiram e sempre existirão. *Psicanalista, membro da SPPA

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17 de março de 2010

MARTHA MEDEIROS

Deixem que atirem o pau no gato


Hoje crianças bem criadas gostam de funk, hip hop e rock’n’roll. As letras são umas porcarias, mas ajudam a extravasar, a divertir e servem como catarse para uma rebeldia que elas naturalmente trazem dentro, e que soltam nas pistas de dança e nas plateias dos shows. Quando eram menores ainda, ouviam canções sobre cravos que brigavam com rosas e sobre um amor que era pouco e se acabou, e quando anoitecia, fechavam os olhinhos e dormiam feito anjos. Simplesmente porque não prestavam atenção nessas letras, e sim no que diziam seus pais. Se a música tinha uma melodia agradável, bastava. O que estava sendo cantado podia ser qualquer coisa. Como, aliás, era.Isso me faz lembrar da minha música predileta do Guns N’ Roses, I Used to Love Her, que não entrou no setlist do show de ontem (me corrijam se eu estiver enganada, não estava lá). Gosto da música não só pelo seu ritmo dançante, mas porque a letra é de um humor negro compatível com o politicamente incorreto que sempre norteou o velho rock. Hoje está tudo muito emo, o rock aderiu à dor de cotovelo e parece música sertaneja tocada em guitarra, baixo e bateria. O Guns ainda mantém aquela certa “sujeira” que caracteriza o gênero, sem falar que Axl Rose tem o atrevimento de cantar coisas como “I used to love her/ But I had to kill her”. A letra conta a história de um cara que não aguentava mais a mulher, só lhe restou matá-la. Ela o deixava louco, que outra solução? A letra conclui: estamos mais felizes desse jeito.Quem não tem, às vezes, vontade de esganar o marido, estrangular a esposa? Sorriam, seus pensamentos secretos não estão sendo filmados. No máximo, viram músicas, viram filmes, viram quadros e viram piada.No entanto, este tem sido dos crimes mais recorrentes e hediondos: homens seguem matando suas ex-esposas e ex-namoradas na vida real, porque elas tiveram a audácia de se separarem deles. “Se não for minha, não será de mais ninguém.” Bang!Será que são as letras de música que formam assassinos? Eu apostaria numa educação bruta ou inexistente, na falta de aprendizado para lidar com frustrações e rejeições, na patética valorização do machismo (aliado ao mais alto grau de ignorância), e, por que não especular, apostaria também na burrice de alguns em não saber aproveitar as purgações que as manifestações artísticas proporcionam e que ajudam a desenvolver o humor, que é o único salva-vidas quando nosso mundo cai.Logo, deixe que atirem o pau no gato. Eu passei a vida escutando isso e nunca atirei nem uma casca de amendoim num gato. Por que nunca fiz isso? Porque nunca vi meus pais fazendo. E neles eu prestava atenção.-->
Guns N’ Roses atiram o pau no gato
Achei que a discussão em torno da mudança das letras de cantigas infantis estivesse encerrada, mas, segundo matéria de ZH, algumas escolas seguem insistindo nessa bobagem, ensinando seus alunos a cantarem “Não atirei o pau no ga-tô-tô”, como se isso fosse fazer diferença nas estatísticas sobre violência.Hoje crianças bem criadas gostam de funk, hip hop e rock’n’roll. As letras são umas porcarias, mas ajudam a extravasar, a divertir e servem como catarse para uma rebeldia que elas naturalmente trazem dentro, e que soltam nas pistas de dança e nas plateias dos shows. Quando eram menores ainda, ouviam canções sobre cravos que brigavam com rosas e sobre um amor que era pouco e se acabou, e quando anoitecia, fechavam os olhinhos e dormiam feito anjos. Simplesmente porque não prestavam atenção nessas letras, e sim no que diziam seus pais. Se a música tinha uma melodia agradável, bastava. O que estava sendo cantado podia ser qualquer coisa. Como, aliás, era.Isso me faz lembrar da minha música predileta do Guns N’ Roses, I Used to Love Her, que não entrou no setlist do show de ontem (me corrijam se eu estiver enganada, não estava lá). Gosto da música não só pelo seu ritmo dançante, mas porque a letra é de um humor negro compatível com o politicamente incorreto que sempre norteou o velho rock. Hoje está tudo muito emo, o rock aderiu à dor de cotovelo e parece música sertaneja tocada em guitarra, baixo e bateria. O Guns ainda mantém aquela certa “sujeira” que caracteriza o gênero, sem falar que Axl Rose tem o atrevimento de cantar coisas como “I used to love her/ But I had to kill her”. A letra conta a história de um cara que não aguentava mais a mulher, só lhe restou matá-la. Ela o deixava louco, que outra solução? A letra conclui: estamos mais felizes desse jeito.Quem não tem, às vezes, vontade de esganar o marido, estrangular a esposa? Sorriam, seus pensamentos secretos não estão sendo filmados. No máximo, viram músicas, viram filmes, viram quadros e viram piada.No entanto, este tem sido dos crimes mais recorrentes e hediondos: homens seguem matando suas ex-esposas e ex-namoradas na vida real, porque elas tiveram a audácia de se separarem deles. “Se não for minha, não será de mais ninguém.” Bang!Será que são as letras de música que formam assassinos? Eu apostaria numa educação bruta ou inexistente, na falta de aprendizado para lidar com frustrações e rejeições, na patética valorização do machismo (aliado ao mais alto grau de ignorância), e, por que não especular, apostaria também na burrice de alguns em não saber aproveitar as purgações que as manifestações artísticas proporcionam e que ajudam a desenvolver o humor, que é o único salva-vidas quando nosso mundo cai.Logo, deixe que atirem o pau no gato. Eu passei a vida escutando isso e nunca atirei nem uma casca de amendoim num gato. Por que nunca fiz isso? Porque nunca vi meus pais fazendo. E neles eu prestava atenção.

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