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terça-feira, 2 de junho de 2009

Amados, conforme conversamos em aula, estou disponibilizando aqui no Blog um textinho adaptado por mim. Leiam e aproveitem! O Monteiro Lobato é show de bola!
Bjokas!!!

Uma ideia da Senhora Emília

Dona Benta estava ensinando gramática às crianças. Elas estavam um pouco entediadas com aquela porção de regras e tal, então Emília teve uma ideia: - Por que ao invés de ficarmos aqui a ouvir falar de gramática, não vamos passear no País da Gramática?
Todos riram, mas, apesar de acharem estranho, era realmente incrível ver tudo de perto. As crianças convidaram então o rinoceronte, Quindim, para guiá-los nessa viagem.
Os meninos fizeram todas as combinações necessárias, e no dia marcado partiram muito cedo, a cavalo no rinoceronte.
Chegando lá, passaram por diversas cidadezinhas, a dos sons, a das palavras de origens estrangeiras e a Portugália, que é uma mistura das palavras de Portugal com às dos índios que aqui habitavam quando vieram os portugueses para cá. Visitaram também a cidade das gírias. Estava muito animado aquele passeio!
Narizinho estava muito contente com as descobertas feitas naqueles locais e estava cada vez mais curiosa para entender melhor como funcionava sua língua materna, então propôs para o pessoal:
- Vamos percorrer a cidade nova, que é a que mais nos interessa!
Montaram novamente no rinoceronte, que se pôs a trote pelo morro abaixo. Grande número de palavras moviam-se com muita ordem, andando de cá para lá e de lá para cá, como gente em uma cidade comum.
- Que bairro é este? Perguntou Narizinho.
- É um bairro muito importante – o Bairro dos NOMES, ou SUBSTANTIVOS.
- Mais que emproados! Disse Emília.
- E são de fato muito importantes. Sem eles seria impossível haver linguagem. Porque os SUBSTANTIVOS é que dão nome a todos os seres vivos e a todas as coisas. Por isso se chamam substantivos, como quem diz que indicam a substância de tudo. Mas reparem que há uns mais orgulhosos e outros mais humildes.
- Sim, estou notando – declarou a menina. – Uns não tiram a mão do bolso e só falam de chapéu na cabeça. Outros parecem modestos. Quem são esses prosas, de mãos no bolso?
- São os NOMES PRÓPRIOS, que servem para designar as pessoas, os países, as cidades, as montanhas, os rios, os continentes etc. Ali vai um – PAULO, que serve para designar certo homem.
- Mas há muitos Paulos – observou Emília.
- Pois esse NOME designa cada um deles, exigindo depois de si um sobrenome para marcar a diferença entre um Paulo e outro. Paulo Silva, Paulo Moreira etc. Já aquela palavra que vem um pouco mais atrás goza de mais importância que o nome PAULO. É a palavra HIMALAIA, que não tem outra coisa a fazer na vida senão designar certa montanha da Índia, a mais alta do mundo.
Esses NOMES PRÓPRIOS – explicou Quindim – têm a seu serviço essa infinidade de NOMES COMUNS que formigam pelas ruas. Os NOMES COMUNS formam a plebe, o povo, o operariado e têm a obrigação de designar cada coisa que existe, por mais insignificante que seja. Qual será a coisa mais insignificante do mundo?
- Cuspe de micróbio! – gritou Emília.
- Realmente, bonequinha, cuspe de micróbio deve ser a coisa mais insignificante do mundo. Mas mesmo assim há necessidade de dois NOMES COMUNS para o designar. Imaginem agora a humildade desses dois NOMES quando passam perto do NOME PRÓPRIO DEUS, por exemplo, ou OURO, que são dos mais graduados!
- Com certeza deitam no chão e viram tapete para que DEUS e OURO lhes pisem em cima – observou Emília.
Emília, Narizinho, Pedrinho, Visconde e Quindim continuaram passeando pelo bairro dos substantivos. Foram descobrindo muitas palavras novas.
Entre a multidão de nomes que enchiam aquela rua, os meninos notaram outras diferenças. Uns pertenciam à classe dos NOMES CONCETOS e outros à classe dos NOMES ABSTRATOS. Havia ainda os NOMES SIMPLES e os NOMES COMPOSTOS. Quindim foi explicando a diferença.
- Os NOMES CONCRETOS são os que marcam coisas ou criaturas que existem de verdade, como homem, Nastácia, tatu, cebola. E os NOMES ABSTRATOS são os que marcam coisas que a gente quer que existam, ou imagina que existem, como bondade, lealdade, justiça, amor.
- E também dinheiro – sugeriu Emília.
- Dinheiro é concreto, porque dinheiro existe – contestou Quindim.
- Mas para mim é abstratíssimo! Nunca vejo e nem toco nesse bendito dinheiro!
- Mas você sabe que existe, Emília, e aquele tostão que dei a você no dia do circo? – lembrou Pedrinho.
- Tostão não é dinheiro; é cuspo de dinheiro – retorquiu Emília.
Depois daquela asneirinha, o rinoceronte continuou:
- Há os NOMES SIMPLES, como a maior parte dos que circulam por aqui, e há também os NOMES COMPOSTOS, como aqueles que ali vão. Estes nomes compostos formam-se de dois nomes simples.
Ia passando o nome guarda-chuva, de braço dado com o nome couve-flor.
- E há ainda os NOMES COLETIVOS – continuou quindim. – Que indicam uma coleção, ou uma porção de coisas – como aquele lá!
Emília chamou-o.
- Venha cá senhor coletivo! Explique-se, diga quem é você.
- Sou o nome cafezal e indico uma porção de pés de café. Satisfeita, senhorita?
- Estaria – respondeu Emília – se em vez de tantos pés de café você me desse uma xícara com bolinhos...
Havia ainda muitos outros tipos de substantivo ali, mas os meninos pretendiam descansar um pouco para prosseguir pelo bairro, pois entre os SUBSTANTIVOS ainda havia algumas diferenças que eles estavam curiosos para descobrir, porém estes ficarão para conhecermos mais tarde!


Fonte: Monteiro Lobato – Emília no País da Gramática.
Adaptação: Profª. Gabriela Ouriques

Um comentário:

  1. Apesar de não conhecer o livro, gostei da adaptação. A Profe, vai colocar mais??? beijo Dé

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