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segunda-feira, 29 de março de 2010

FORA DOS TRILHOS

O texto a seguir é de uma colega de universidade. Adorei a crônica e a estou postando aqui no blog. Também sou um pouco saudosista de um tempo em que não vivi nessas ruas de Porto Alegre .
Adoraria ter feito passeios nos antigos bondes da capital, época que meu pai viveu, no entanto, não tem a mínima saudade...

FORA DOS TRILHOS
No lugar dos trilhos da João Pessoa, existe hoje um corredor de ônibus. O que não impede os bondes de circularem por ali. A Redenção tornou-se ponto de convergência de bondes que para lá carregam muitos jovens. Assim como as antigas linhas de bondes, cada um desses malfazejos bondes contemporâneos traz a sua identificação explícita para que ninguém se perca. Têm nomes essas gangues juvenis denominadas “bondes” e algum signo – tênis, bonés, etc. – que as distingue das demais. E a Redenção, que já sediou partidas de polo, tornou-se palco de disputas entre esses grupos.


Por Maria Helena Ruschel

Tomei conhecimento das aquarelas de José Lutzenberger – coleção Porto Alegre Antiga - através da divulgação feita pelo Studio Clio.
”Despedida no trem” pareceu-me muito representativa da época.
Nessa tela, o artista retrata uma cena comum da época: para se deslocarem de uma cidade à outra, as pessoas iam de trem. Não deveriam fazê-lo com muita frequência, haja vista a demora da viagem, muito superior à atual com os meios de transporte agora disponíveis. Por esse motivo, provavelmente, as pessoas viajavam menos que nos dias atuais e permaneciam fora mais tempo. O que tornava cada viagem um acontecimento, com muita bagagem e muitas despedidas.
Também sobre trilhos andava o transporte urbano de Porto Alegre. Linhas de bonde ligando os bairros ao Centro. Quem pegasse, por exemplo, o bonde Menino Deus rumo ao Centro, passava pela Avenida João Pessoa, ladeando o Parque Farroupilha, agora e então conhecido como Redenção.
No lugar dos trilhos da João Pessoa, existe hoje um corredor de ônibus. O que não impede os bondes de circularem por ali. A Redenção tornou-se ponto de convergência de bondes que para lá carregam muitos jovens. Assim como as antigas linhas de bondes, cada um desses malfazejos bondes contemporâneos traz a sua identificação explícita para que ninguém se perca. Têm nomes essas gangues juvenis denominadas “bondes” e algum signo – tênis, bonés, etc. – que as distingue das demais. E a Redenção, que já sediou partidas de polo, tornou-se palco de disputas entre esses grupos.
O que disputam eles? Territórios, à moda dos felinos? Quem deixa sua marca registrada em maior número de prédios e monumentos? Eventualmente, o troféu do vencedor pode ser uma baixa nas hostes adversárias.
Não resisto à tentação de comparar esses grupos com os “Jornaleiros Meninos”, outra aquarela de Lutzenberger, também da coleção Porto Alegre Antiga.
O artista retrata os “Jornaleiros Meninos” como um alegre grupinho reunido em alguma esquina do Centro. Posso vê-los contando suas moedas, apreciando as paqueras nas janelas, cobiçando os doces da Confeitaria Central, correndo atrás da carrocinha dos cachorros. Praticavam, talvez, algum campeonato, como apostar quem atirava mais pedras nos pobres animais recolhidos pela carrocinha.
No fim do dia, os meninos jornaleiros podiam retornar para seus lares de bonde. Para isso dava a féria do dia. A passagem era baratinha.
Encontravam as famílias reunidas em frente aos casebres onde moravam. Aguardava-os uma xepa rala e um colchão de palha. Era dura a vida, então.
Onde estarão agora os Jornaleiros Meninos?
Continuam pelo Centro. Mudaram de ramo. Agora são trombadinhas afanando a bolsa de alguma senhora distraída. Pedem esmolas nas sinaleiras – onde também é possível afanar bolsas, relógios, celulares – e troquinhos na porta dos supermercados. Vendem bala de goma no trem urbano, onde também distribuem folhetinhos expondo as mazelas da família. Família – pai, mãe e filhos residindo em algum casebre – que, na maioria das vezes, não têm.
Conseguida a féria do dia, reúnem-se no vão de um prédio, ou sob uma marquise, e dormem sobre um colchão de concreto após amortecerem os sentidos com a droga do momento.
Alguns dormem em colchões de espuma. Nos abrigos públicos e nos centros de reabilitação de crianças e adolescentes.
Mudaram de ramo, os meninos que circulam pelas ruas centrais. Também mudaram de nome. Agora são Meninos e Meninas de Rua. Pois é, a rua deixou de ser privilégio dos meninos. Nos dias atuais, as meninas dividem o espaço com eles.
Mudaram de ramo e mudaram de nome os meninos de Lutzenberger e também se tornaram invisíveis, já que todos passam e não os enxergam. O que não os torna inexistentes. Pelo contrário. Tornaram-se tão onipresentes que mudaram os hábitos de toda população.
As famílias já não se reúnem em frente aos casebres, às casas e aos prédios. Nos automóveis, as bolsas passaram do banco do carona para o porta-malas; nas ruas, as mulheres se agarram às suas bolsas com mão de ferro e olho vigilante. As crianças já não brincam nas ruas, e os adultos evitam a sombra das alamedas ao fazerem suas caminhadas na Redenção.
Eis aí os antigos “Jornaleiros Meninos”. Nos bondes, ou fora deles, pequenos ou crescidos, das esquinas do Centro espalharam-se para todos os lados. Não têm nada. Nem rumo, nem trilhos que os levem a lar algum. E a lugar algum. Não são senhores de si. São, no entanto, os senhores do espaço público da Capital.
Porto Alegre saiu dos trilhos, ou eu sou saudosista em relação a uma época que nem vivi?

segunda-feira, 22 de março de 2010

Café & Literatura


Pra mim o café e um bom livro são combinações perfeitas e para estudar também. Não sei explicar, mas parece que uma xícara de fumegante café abre caminhos para as ideias passarem e se multiplicarem... Fiquei surpresa ao constatar num blog uma pesquisa feita com escritores e suas manias para escrever: o bom café estava lá em uma grande quantidade de respostas. Confiram, vale a pena saber em que condições são escritas as histórias que nos "enredam" tanto!



Alguns depoimentos:


Fabrício Carpinejar, autor de Canalha!“Não consigo escrever sem camisa. É como desrespeitar a imaginação. Eu me sinto travado. Meu melhor período é de manhã. Na tarde, leio outros livros. Na noite, reviso meus originais. Eu me sustento com café. Fico isolado no fundo do pátio, num bunker, artefando a linguagem. Sou disciplinado. Na hora de algum bloqueio, faço faxina da grossa, com detergente e enceradeira. Volto cansado ao computador, sem vontade de mentir. Rabisco caderninhos, mas são os apontamentos que nunca leio. Adivinho o que escrevi lá. Os filhos não me atrapalham, podem conversar e perguntar que mantenho a costura da pele.”
Carlos André Moreira, autor de Tudo o que fizemos“Como me dedico a escrever no que sobra de tempo da carreira de jornalista, meu horário é o que eu conseguir separar para sentar em frente ao computador – que fica no quarto, não tenho um gabinete especial em casa. Mas já notei que rendo melhor madrugada adentro e não durante o dia. Escrevo – e também trabalho como tradutor – depois de fazer uma xícara de café, trazê-la para a escrivaninha e colocá-la ao lado do monitor (onde podem ser vistos também alguns carrinhos Hot Wheels que tenho há muitos anos e que gosto que decorem o ambiente). A escrivaninha é uma bagunça, com pilhas de livros e CDs de rock em volta – na primeira meia hora, ouço música quando estou escrevendo. Depois desligo e continuo só com o som ou silêncio da vizinhança.”

Cintia Moscovich, autora de Por que sou gorda, mamãe? “Basicamente, não consigo escrever com nenhuma peça de roupa me apertando. Nem com barulho, uma creche se mudou para a casa ao lado da minha e tenho vivido o inferno. Mas, no mais, eu tenho alguns hábitos, sim, que aplico depois das cinco e meia da tarde, quando o raio da creche fecha. Pode parecer engraçado, e de fato é, mas o ambiente em que estou tem que estar agradável, nem frio nem calor, nada que me tire o foco de concentração. Sempre tenho um copo de água à mão. Quando sinto os olhos cansados, paro de escrever e tomo café. Quando a coisa fica preta, que nada me sai, faço uma dobradinha poderosa, café e chocolate. O café tem de ser recém-passado e o chocolate pode ser substituído por algum doce, importa é o açúcar. Fico na boa, beleza de doping engordativo, até me ocorrem idéias. O melhor de tudo é quando consigo andar de bicicleta ou fazer ginástica antes de escrever. Banho de endorfina e outros hormônios ajudam a relaxar e a pensar. Quando estou no desespero, coloco perto de mim um óculos que pertenceu a meu pai. Uma muleta afetiva das boas. Recomendo.”

sexta-feira, 19 de março de 2010

Palavras de Mia Couto



Mia Couto

Em recente entrevista para a Revista da Cultura, o escritor moçambicano Mia Couto, ao ser perguntado sobre qual o gênero é de mais difícil escrita, respondeu o que segue:

Qual dos gêneros é mais difícil? O infantil, sem dúvida. Porque não sei pensar esse gênero e me custa acreditar que se escreve para crianças. A idéia de que elas pedem uma escrita simplificada é uma tentação fácil, mas profundamente arrogante. Nessa escrita, percebemos que não sabemos falar com a infância que ainda vive em nós.

A íntegra da entrevista pode ser acessada em http://www2.livrariacultura.com.br/culturanews/rc19/index2.asp?page=entrevista

Essa retirei do blog do Caio Ritter - Reinações

Mais uma:

“É preciso entender que os meninos estão deixando de ler os livros porque estão deixando de ler o mundo, de ser capaz de ler os outros, de ler a vida. Estão perdendo a disponibilidade de estar aberto aos demais, estar atentos às vozes, saber escutar. Há toda uma pedagogia que é preciso ser feita no conjunto. Não se pode isolar o livro e torná-lo como se fosse bandeira única desta luta. Uma coisa que aprendo na África é esta habilidade de se contar histórias e fazer com que o livro seja uma maneira de estimular, que os meninos não sejam só consumidores de história, mas também produtores de história. Quem não sabe contar uma história é pobre de alguma maneira.”

(Mia Couto, para revista ISTOÉ, sobre como estimular o gosto pela leitura.)

O Mapa - Quintana


Olho o mapa da cidade

Como quem examinasse
A anatomia de um corpo...
(É nem que fosse o meu corpo!)

Sinto uma dor infinita
Das ruas de Porto Alegre

Onde jamais passarei...
Há tanta esquina esquisita,

Tanta nuança de paredes,

Há tanta moça bonita

Nas ruas que não andei

(E há uma rua encantada

Que nem em sonhos sonhei...)
Quando eu for, um dia desses,
Poeira ou folha levada
No vento da madrugada,

Serei um pouco do nada

Invisível, delicioso
Que faz com que o teu ar
Pareça mais um olhar,

Suave mistério amoroso,

Cidade de meu andar
(Deste já tão longo andar!)

E talvez de meu repouso...

(Apontamentos de História Sobrenatural)




Mário Quintana







Estão assassinando nosso folclore!


Ultimamente, com a violência nos oprimindo de todos os lados, tem havido um forte movimento por parte das escolas a fim de tentar encontrar as causas deste problema e erradicá-las.
A agressividade por parte de um grande número de jovens vem crescendo e os educadores se perguntam: por quê? Na verdade as respostas são várias e se estendem desde a convivência com os pais até os programas televisivos a que assistem.
O que fazer para tentar amenizar esse problema? Algumas escolas estão recorrendo a mudanças em letras de músicas, tirando marcas intrínsecas de personagens do folclore brasileiro - como o caso do Saci - causando uma transfiguração da cultura popular brasileira. Isso resolve?
Sinceramente, as crianças precisam refletir e conhecer a realidade dos personagens folclóricos, conhecer a história de cada um e entender o porquê dele ser delineado por certos traços que "hoje" são vistos com maus-olhos.
Se a educação - hoje - visa desenvolver uma criança com senso crítico e que não aceite as "verdades" simplesmente impostas, os educadores poderiam se valer desses personagens para instaurar em suas aulas uma reflexão sobre valores, ética, comportamento humano. É certo atirar o pau no gato? Use a música para um debate com as crianças, faça um julgamento em sala de aula, uma espécie de audiência onde haja defensoria, promotoria, juiz, etc.
O Saci, personagem tipicamente brasileiro vem ao encontro das ideias de combate ao fumo e vida saudável? Use-o a seu favor, recorra à história brasileira, índice de doenças causadas pelo cigarro há anos atrás, decorrentes da falta de informação a respeito, etc. Há uma infinidade de coisas que podem ser trabalhadas partindo desses "mau-exemplos" do nosso querido folclore. Será que as bruxas, os sacis, os monstros não podem virar aliados da educação? Eis aí um desafio aos professores brasileiros!
Negar o que é fato e que está inserido na nossa cultura há séculos é que não dá.

Agora fiquem com dois textos extraídos do Jornal Zero Hora desta semana. Ambos se relacionam a este artigo que escrevi.
Abraços!



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18 de março de 2010
ARTIGOS
A criança, as fadas e os monstros, por Luciane Falcão*
Por que será que ainda temos profissionais da área da infância que se questionam se devemos ou não contar as histórias infantis e incluir ou não os “monstros”?Por que será que estamos “evitando os monstros” ou querendo “fazer de conta” que eles não existem, suprimindo-os dos clássicos da literatura?O “faz de conta” faz parte de uma etapa do desenvolvimento infantil, etapa essa fundamental na estruturação psíquica da criança. Será que esses adultos ainda “fazem de conta” que a agressividade, a raiva e os sentimentos ligados a isso não existem? Precisam ser excluídos, extirpados da mente? Ou será que eles próprios ainda se assustam com esses sentimentos, sentindo-se incapazes de lidar com a agressão e a violência?O período da infância no qual o “faz de conta” está presente é o momento em que ela vivencia o mundo da fantasia. E o que é essa fantasia? É um treino, é uma brincadeira, é, literalmente, um “faz de conta” pelo qual ela poderá, aos poucos, viver aquilo que está dentro dela, do seu mundo interno, dos seus pensamentos. Viver isso através das brincadeiras, do faz de conta, das histórias infantis e, num dado momento, opa!!!, preciso voltar para a realidade!!! Neste momento, a criança passa a estruturar dentro de si algo que é fundamental no ser humano, a capacidade de discernir entre o que é o seu pensamento, a sua ideia, o “faz de conta” e o real. Sem isso, ela estará permanentemente fora da realidade e incapaz de lidar com as angústias e as frustrações que fazem parte de qualquer desenvolvimento. Há uma necessidade desse vaivém na vida psíquica da criança e nela, sim, a raiva, a agressão, o ódio estarão presentes.Então, o problema não é a raiva, o ódio, sentidos pela criança – amor/ódio, Eros/Thanatos, fazem parte do homem, da humanidade, de todos!!! –, o problema é como permitir à criança vivenciá-los sem destruir o outro na relação.Freud nos mostrou que há uma polaridade que rege a vida psíquica e a vida sociocultural do homem. O amor, Eros, liga; o ódio, Thanatos, destruição, desliga, dissocia, separa. Essas duas tendências vêm juntas. Seria mais esperançoso apostar na possibilidade de o homem reconhecer seus sentimentos, seus afetos e saber lidar com eles do que negar sua existência, e essa ideia precisa ser disseminada na nossa sociedade, nas creches, nas escolas, nas universidades, nos juizados.Paradoxos e ambivalências fazem parte do progresso e do desenvolvimento do indivíduo.Então, por que será que os educadores ainda se assustam com as histórias infantis e o que elas representam?Eu também me assusto quando penso que na nossa sociedade há uma incapacidade dos adultos para lidar com aquilo que faz parte do ser humano... Quais monstros as crianças precisam temer? Somente os que estão dentro do seu psíquico ou aqueles que são incapazes de ter instrumentos para enfrentá-los? Monstros e fadas sempre existiram e sempre existirão. *Psicanalista, membro da SPPA

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17 de março de 2010

MARTHA MEDEIROS

Deixem que atirem o pau no gato


Hoje crianças bem criadas gostam de funk, hip hop e rock’n’roll. As letras são umas porcarias, mas ajudam a extravasar, a divertir e servem como catarse para uma rebeldia que elas naturalmente trazem dentro, e que soltam nas pistas de dança e nas plateias dos shows. Quando eram menores ainda, ouviam canções sobre cravos que brigavam com rosas e sobre um amor que era pouco e se acabou, e quando anoitecia, fechavam os olhinhos e dormiam feito anjos. Simplesmente porque não prestavam atenção nessas letras, e sim no que diziam seus pais. Se a música tinha uma melodia agradável, bastava. O que estava sendo cantado podia ser qualquer coisa. Como, aliás, era.Isso me faz lembrar da minha música predileta do Guns N’ Roses, I Used to Love Her, que não entrou no setlist do show de ontem (me corrijam se eu estiver enganada, não estava lá). Gosto da música não só pelo seu ritmo dançante, mas porque a letra é de um humor negro compatível com o politicamente incorreto que sempre norteou o velho rock. Hoje está tudo muito emo, o rock aderiu à dor de cotovelo e parece música sertaneja tocada em guitarra, baixo e bateria. O Guns ainda mantém aquela certa “sujeira” que caracteriza o gênero, sem falar que Axl Rose tem o atrevimento de cantar coisas como “I used to love her/ But I had to kill her”. A letra conta a história de um cara que não aguentava mais a mulher, só lhe restou matá-la. Ela o deixava louco, que outra solução? A letra conclui: estamos mais felizes desse jeito.Quem não tem, às vezes, vontade de esganar o marido, estrangular a esposa? Sorriam, seus pensamentos secretos não estão sendo filmados. No máximo, viram músicas, viram filmes, viram quadros e viram piada.No entanto, este tem sido dos crimes mais recorrentes e hediondos: homens seguem matando suas ex-esposas e ex-namoradas na vida real, porque elas tiveram a audácia de se separarem deles. “Se não for minha, não será de mais ninguém.” Bang!Será que são as letras de música que formam assassinos? Eu apostaria numa educação bruta ou inexistente, na falta de aprendizado para lidar com frustrações e rejeições, na patética valorização do machismo (aliado ao mais alto grau de ignorância), e, por que não especular, apostaria também na burrice de alguns em não saber aproveitar as purgações que as manifestações artísticas proporcionam e que ajudam a desenvolver o humor, que é o único salva-vidas quando nosso mundo cai.Logo, deixe que atirem o pau no gato. Eu passei a vida escutando isso e nunca atirei nem uma casca de amendoim num gato. Por que nunca fiz isso? Porque nunca vi meus pais fazendo. E neles eu prestava atenção.-->
Guns N’ Roses atiram o pau no gato
Achei que a discussão em torno da mudança das letras de cantigas infantis estivesse encerrada, mas, segundo matéria de ZH, algumas escolas seguem insistindo nessa bobagem, ensinando seus alunos a cantarem “Não atirei o pau no ga-tô-tô”, como se isso fosse fazer diferença nas estatísticas sobre violência.Hoje crianças bem criadas gostam de funk, hip hop e rock’n’roll. As letras são umas porcarias, mas ajudam a extravasar, a divertir e servem como catarse para uma rebeldia que elas naturalmente trazem dentro, e que soltam nas pistas de dança e nas plateias dos shows. Quando eram menores ainda, ouviam canções sobre cravos que brigavam com rosas e sobre um amor que era pouco e se acabou, e quando anoitecia, fechavam os olhinhos e dormiam feito anjos. Simplesmente porque não prestavam atenção nessas letras, e sim no que diziam seus pais. Se a música tinha uma melodia agradável, bastava. O que estava sendo cantado podia ser qualquer coisa. Como, aliás, era.Isso me faz lembrar da minha música predileta do Guns N’ Roses, I Used to Love Her, que não entrou no setlist do show de ontem (me corrijam se eu estiver enganada, não estava lá). Gosto da música não só pelo seu ritmo dançante, mas porque a letra é de um humor negro compatível com o politicamente incorreto que sempre norteou o velho rock. Hoje está tudo muito emo, o rock aderiu à dor de cotovelo e parece música sertaneja tocada em guitarra, baixo e bateria. O Guns ainda mantém aquela certa “sujeira” que caracteriza o gênero, sem falar que Axl Rose tem o atrevimento de cantar coisas como “I used to love her/ But I had to kill her”. A letra conta a história de um cara que não aguentava mais a mulher, só lhe restou matá-la. Ela o deixava louco, que outra solução? A letra conclui: estamos mais felizes desse jeito.Quem não tem, às vezes, vontade de esganar o marido, estrangular a esposa? Sorriam, seus pensamentos secretos não estão sendo filmados. No máximo, viram músicas, viram filmes, viram quadros e viram piada.No entanto, este tem sido dos crimes mais recorrentes e hediondos: homens seguem matando suas ex-esposas e ex-namoradas na vida real, porque elas tiveram a audácia de se separarem deles. “Se não for minha, não será de mais ninguém.” Bang!Será que são as letras de música que formam assassinos? Eu apostaria numa educação bruta ou inexistente, na falta de aprendizado para lidar com frustrações e rejeições, na patética valorização do machismo (aliado ao mais alto grau de ignorância), e, por que não especular, apostaria também na burrice de alguns em não saber aproveitar as purgações que as manifestações artísticas proporcionam e que ajudam a desenvolver o humor, que é o único salva-vidas quando nosso mundo cai.Logo, deixe que atirem o pau no gato. Eu passei a vida escutando isso e nunca atirei nem uma casca de amendoim num gato. Por que nunca fiz isso? Porque nunca vi meus pais fazendo. E neles eu prestava atenção.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Filmes relacionados à literatura.


Professores e estudantes, deem uma olhada nas dicas de filmes relacionados à literatura e ampliem seus conhecimentos através deles!


-Sociedade dos Poetas Mortos, de Peter Weir;

-Encontrando Forrester, de Gus vam Sant;

-Nunca te vi, sempre te amei, de David Hug Jones;

-Balzac e a costureirinha chinesa, de Dai Sijie;

-Série: Tudo que é sólido pode derreter, que realciona o cotidiano de uma adolescente, estudante do ensino médio, com as obras clássicas da literatura de língua portuguesa;

-Romeu e Julieta e a Megera domada, de Franco Zefirelli;

-A sedutora Madame Bovary, de Vicente Minelli;

-Frankestein, de James Whale;

-Drácula de Bram Stocker, de Francis Ford Coppola;

-Senhor dos Anéis, de Pater Jackson;

-Moça com brinco de Pérola, de Peter Webber

-Vidas Secas e Memórias do Cárcere, de Nelson Pereira dos Santos;

-Macunaíma, de Joaquim Pedro Andrade;

-Triste Fim de Policarpo Quaresma, de Paulo Thiago;

-Brás Cubas, de Júlio Bressane;

-Memórias Póstumas, de André Klotzel;

-Desmundo, de Alain Fresnot;

-O coronel e o lobisomem, de Maurício Farias;

-O Primo Basílio, de Daniel Filho;

-O crime do Padre Amaro, de Carlos Carrera.

-Os Maias, de Luiz Fernando Carvalho;

-Cruz e Souza- o poeta do desterro, de Sylvio Back;

-Balzac, de Dayana Josee;

-Vinícius de Moraes, de Miguel Faria Jr.;

-Poeta de sete faces, de Paulo Thiago;

-Drummond, poeta do vasto mundo, de Maria Maia;

O que é leitura?


Bem, para cada um, essa palavrinha soa com uma diferente intensidade. Cada um a recebe e a sente de formas diversas, mas só pode defini-la quem a houver experimentado em todo o seu teor...


Vamos ver o que alguns escritores, que nos propiciam esse deleite, dizem a respeito da leitura em suas vidas:


“Todos lemos a nós e ao mundo à nossa volta para vislumbrar o que somos e onde estamos. Lemos para compreender, ou para começar a compreender. Ler, quase como respirar é nossa função essencial.” Alberto Manguel – escritor argentino.


“ A leitura nos leva por mundos que nunca existiram nem existirão, por espaços longínquos que nunca visitaremos. É desse mundo diferente, estranho do nosso, que passamos a ver o mundo em que vivemos de uma outra forma.” Rubens Alves


“Através da leitura, é possível apurar o olhar para enxergar o que parece ‘invisível’, mas está o tempo todo diante de nós. A literatura nos dá um outro ‘ver’, o ver de verdade.” Alice Ruiz


“ A leitura era um modo de me abstrair de tudo o que incomodava, de colocar minhas raivas para fora. Depois passou a ser uma forma de resolver meus conflitos, de viver os personagens, de amar todas aquelas mulheres... Fui Julien Sorel, Clyde Griffiths, Mr. Ripley, Simbad, o marujo, e assim por diante. Ler era a minha maneira de entender a vida, de ir embora. Ainda é. Quando estou lendo, me concentro, levito, saio de mim. Ler é ganhar a alma. É ser sobrevivente. A leitura é uma bóia salva-vidas. Um scaler.” Ignácio de Loyola Brandão

“Eu costumo falar no esplendor do livro porque ele abre para mundos novos, ideias e sentimentos novos, descobertas sobre nós mesmos, os outros e a realidade. Ler, acredito, é uma das experiências mais radiosas de nossa vida, pois, como leitores, descobrimos nossos próprios pensamentos e nossa própria fala graças ao pensamento e à fala de um outro. Ler é suspender a passagem do tempo: para o leitor, os escritores passados se tornam presentes, os escritores presentes dialogam com o passado e anunciam o futuro.” Marilena Chauí


E para você, que significado tem a leitura?



quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Mafalda


Lenda da vitória-régia













A lenda da vitória-régia é uma lenda brasileira de origem indígena tupi-guarani.



Há muitos anos, em uma tribo indígena, contava-se que a lua (Jaci, para os índios) era uma deusa que ao despontar a noite, beijava e enchia de luz os rostos das mais belas virgens índias da aldeia - as cunhantãs-moças. Sempre que ela se escondia atrás das montanhas, levava para si as moças de sua preferência e as transformava em estrelas no firmamento.
Uma linda jovem virgem da
tribo, a guerreira Naiá, vivia sonhando com este encontro e mal podia esperar pelo grande dia em que seria chamada por Jaci. Os anciãos da tribo alertavam Naiá: depois de seu encontro com a sedutora deusa, as moças perdiam seu sangue e sua carne, tornando-se luz - viravam as estrelas do céu. Mas quem a impediria? Naiá queria porque queria ser levada pela lua. À noite, cavalgava pelas montanhas atrás dela, sem nunca alcançá-la. Todas as noites eram assim, e a jovem índia definhava, sonhando com o encontro, sem desistir. Não comia e nem bebia nada. Tão obcecada ficou que não havia pajé que lhe desse jeito.
Um dia, tendo parado para descansar à beira de um
lago, viu em sua superfície a imagem do deusa amada: a lua refletida em suas águas. Cega pelo seu sonho, lançou-se ao fundo e se afogou. A lua, compadecida, quis recompensar o sacrifício da bela jovem india, e resolveu transformá-la em uma estrela diferente de todas aquelas que brilham no céu. Transformou-a então numa "Estrela das Águas", única e perfeita, que é a planta vitória-régia. Assim, nasceu uma linda planta cujas flores perfumadas e brancas só abrem à noite, e ao nascer do sol ficam rosadas.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Trabalho na turma de 2º ano da E.E.E.M. Guimarães Rosa - Cachoeirinha/RS

No dia 29 de setembro, os alunos da turma 203(noturno) da E.E.E.M. Guimarães Rosa tiveram uma atividade diferente na disciplina de língua portuguesa: após assistirem a alguns vídeos de reportagens sobre o caso do aluno que precisou reparar os danos feitos à pintura da Escola E.E.E.M. Barão de Lucena em Viamão, eu promovi um debate sobre o tema, solicitando que, a partir das informações que tinham, eles tomassem uma posição diante do caso e elaborassem um artigo de opinião. A aula e o tema tiveram tanta repercussão que os alunos estão se organizando para deixar o espaço escolar mais bonito e agradável!

Clique na imagem para ver algumas opiniões!

Herta Müller recebe Nobel da Literatura

ESTOCOLMO, Suécia, 8 Out 2009 (AFP) - A escritora alemã Herta Müller, de origem romena, foi anunciada nesta quinta-feira pela Academia Sueca como a vencedora do Prêmio Nobel de Literatura de 2009.

A Academia afirma em um comunicado que Müller, 56 anos, foi premiada porque com a "densidade da poesia e a franqueza da prosa retrata os cenários dos abandonados".

"Seus romances com detalhes cinzelados dão uma imagem da vida diária em uma ditadura petrificada", afirma a nota da Academia."

Müller é um nome ainda pouco publicado no Brasil. Seu primeiro romance a sair por aqui foi O Compromisso, editado em 2004, pela Globo, com tradução de Lya Luft. E um conto da autora foi reunido por Rolf G. Renner e Marcelo Backes no volume (também de 2004) Escombros e Caprichos: O Melhor do Conto Alemão no Século 20, da L&PM – onde, a propósito, também figura a única obra de Jelinek traduzida por aqui.

Abaixo o um conto da escritora presente na já mencionada antologia de contos alemães da L&PM:

A Canção de Marchar
Herta Müller
Sempre que o domingo, conforme dizia papai, chegava ao céu, papai encontrava esses estilhaços na sopa. Papai, na condição de herói alemão da guerra, tinha três deles no pulmão. Eles se mudavam de um lugar a outro. Papai tinha medo de que um dia se mudassem para o coração. Aí será o fim, disse papai.
Um dia, os estilhaços chegaram ao rosto de papai, e papai não fez a barba durante vários dias.
Quando eu olhava, papai punha a colher sobre os estilhaços ou enterrava-os debaixo de um bolinho de batata ou de um pedaço de legume. Na hora de lavar a louça, os estilhaços tiniam em seu prato.
Um dia nós estávamos visitando a irmã de papai e ela serviu uma sopa rala. Papai mais uma vez encontrou os estilhaços em seu prato. E como não pôde enterrá-los debaixo de um bolinho de batata ou de um pedaço de legume, papai engoliu os estilhaços. Todos haviam acabado com a sopa de seus pratos e elogiado os dotes culinários de minha tia.
Depois da refeição as mulheres dançaram umas com as outras. Minha mãe, pequena e seca, dançava, suando, com minha tia gorda. A irmã de meu pai ria, e suas bochechas tremiam o tempo todo.
Os homens haviam ficado à mesa e cantavam canções de guerra alemãs. Quando as mulheres passavam por eles dançando, os homens davam palmadas em suas bundas grossas e saltitantes. as mulheres riam alto, davam passos de dança ainda mais saltitantes e movimentavam os braços para cima e para baixo. Papai seguia o compasso, batendo com sua mão imensa sobre o tampo da mesa: "E minha noiva, a Loiva, ela é igualzinha a mim".
Quando estava anoitecendo, papai se levantou e cantou, em pé e com os lábios tremebundos e os olhos vermelhos, a canção de marchar. Minhas tias balançavam as pequenas cabeças e tinham os olhos úmidos.
Na terceira estrofe papai se curvou de dor.
Desde aquele dia nós íamos todos os anos visitar a irmã de papai e nos era servida uma sopa rala. Depois da refeição as mulheres dançavam umas com as outras. Minha mãe ficava sempre sentada, pálida e passando frio, a um canto da sala. Seus olhos ficavam molhados e ela voltava a puxar de volta à testa as lágrimas tépidas que insistiam em forçar passagem através de seu nariz. Ela embolava seu lenço na mão congelada, soluçava, dizendo que meu pai era inesquecível, que ele continuava sendo o mesmo para ela. Também a irmã de meu pai afundava em uma cadeira e chorava longas frases. E suas bochechas tremiam nas palavras afogadas.
Os homens que haviam ficado à mesa cantavam canções de guerra. Sempre, quando anoitecia, eles se levantavam. Ficavam parados em volta da mesa. De seus olhos vermelhos, um brilho profundamente vermelho se deitva sobre a toalha de mesa, entre suas grandes mãos. Eles olhavam paralisados dentro desse brilho vermelho e cantavam, com lábios tremebundos, a canção de marchar.
Todos os anos um deles se curvava de dor na terceira estrofe e morria.
No ano passado nós mais uma vez estávamos visitando a irmão de papai e nos foi servida uma sopa rala. Depois da refeição as mulheres se levantaram e a mesa estva vazia. Cada uma das tias sentou-se, pálida e passando frio, a um canto da sala e chorou, pressionando o lenço sobre as lágrimas tépidas, sobre o rosto, e soluçou dizendo que seu marido era inesquecível e continuava sendo o mesmo para ela.
Quando estava anoitecendo as mulheres se levantaram e puseram-se em volta da mesa. E através do vão da porta do armário semifechada, soou a fita com a canção de marchar. Minhas tias ficaram paradas, imóveis e mudas. Na segunda estrofe minha mãe pequena e seca cantarolou junto, sem abrir a boca. Na comissura de seus lábios movia-se uma sombra fraca. Quando chegaram à terceira estrofe, a irmã gorda de papai cantarolou junto, de boca fechada. A canção tremeu em suas bochechas e sua testa estava branca. Na quarta estrofe a minha tia mais gorda cantarolou junto. Ela respirava profundamente em meio à canção e sobre seus seios os botões em suas molduras finas e douradas brilhava como se fossem medalhas.
Quando a canção chegou ao fim, a irmã de papai estava diante do armário. Suas mãos estavam pesadas da luz do crepúsculo, e com as pontas mudas dos dedos ela fechou a porta do armário.
O cantarolar ainda pairou por longo tempo no ar da sala. O cantarolar já estava monótono e cansado. E ele era ilimitado no crepúsculo.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Conto - A moça tecelã

A Moça Tecelã
Por Marina Colasanti
Acordava ainda no escuro, como se ouvisse o sol chegando atrás das beiradas da noite. E logo sentava-se ao tear.

Linha clara, para começar o dia. Delicado traço cor da luz, que ela ia passando entre os fios estendidos, enquanto lá fora a claridade da manhã desenhava o horizonte.
Depois lãs mais vivas, quentes lãs iam tecendo hora a hora, em longo tapete que nunca acabava.

Se era forte demais o sol, e no jardim pendiam as pétalas, a moça colocava na lançadeira grossos fios cinzentos do algodão mais felpudo. Em breve, na penumbra trazida pelas nuvens, escolhia um fio de prata, que em pontos longos rebordava sobre o tecido. Leve, a chuva vinha cumprimentá-la à janela.

Mas se durante muitos dias o vento e o frio brigavam com as folhas e espantavam os pássaros, bastava a moça tecer com seus belos fios dourados, para que o sol voltasse a acalmar a natureza.

Assim, jogando a lançadeira de um lado para outro e batendo os grandes pentes do tear para frente e para trás, a moça passava os seus dias.

Nada lhe faltava. Na hora da fome tecia um lindo peixe, com cuidado de escamas. E eis que o peixe estava na mesa, pronto para ser comido. Se sede vinha, suave era a lã cor de leite que entremeava o tapete. E à noite, depois de lançar seu fio de escuridão, dormia tranqüila.Tecer era tudo o que fazia.

Tecer era tudo o que queria fazer.Mas tecendo e tecendo, ela própria trouxe o tempo em que se sentiu sozinha, e pela primeira vez pensou em como seria bom ter um marido ao lado.

Não esperou o dia seguinte. Com capricho de quem tenta uma coisa nunca conhecida, começou a entremear no tapete as lãs e as cores que lhe dariam companhia. E aos poucos seu desejo foi aparecendo, chapéu emplumado, rosto barbado, corpo aprumado, sapato engraxado. Estava justamente acabando de entremear o último fio da ponto dos sapatos, quando bateram à porta.

Nem precisou abrir. O moço meteu a mão na maçaneta, tirou o chapéu de pluma, e foi entrando em sua vida.Aquela noite, deitada no ombro dele, a moça pensou nos lindos filhos que teceria para aumentar ainda mais a sua felicidade.

E feliz foi, durante algum tempo. Mas se o homem tinha pensado em filhos, logo os esqueceu. Porque tinha descoberto o poder do tear, em nada mais pensou a não ser nas coisas todas que ele poderia lhe dar.

— Uma casa melhor é necessária — disse para a mulher. E parecia justo, agora que eram dois. Exigiu que escolhesse as mais belas lãs cor de tijolo, fios verdes para os batentes, e pressa para a casa acontecer.

Mas pronta a casa, já não lhe pareceu suficiente.

— Para que ter casa, se podemos ter palácio? — perguntou. Sem querer resposta imediatamente ordenou que fosse de pedra com arremates em prata.
Dias e dias, semanas e meses trabalhou a moça tecendo tetos e portas, e pátios e escadas, e salas e poços. A neve caía lá fora, e ela não tinha tempo para chamar o sol. A noite chegava, e ela não tinha tempo para arrematar o dia. Tecia e entristecia, enquanto sem parar batiam os pentes acompanhando o ritmo da lançadeira.

Afinal o palácio ficou pronto. E entre tantos cômodos, o marido escolheu para ela e seu tear o mais alto quarto da mais alta torre.

— É para que ninguém saiba do tapete — ele disse. E antes de trancar a porta à chave, advertiu: — Faltam as estrebarias. E não se esqueça dos cavalos!

Sem descanso tecia a mulher os caprichos do marido, enchendo o palácio de luxos, os cofres de moedas, as salas de criados. Tecer era tudo o que fazia. Tecer era tudo o que queria fazer.

E tecendo, ela própria trouxe o tempo em que sua tristeza lhe pareceu maior que o palácio com todos os seus tesouros. E pela primeira vez pensou em como seria bom estar sozinha de novo.

Só esperou anoitecer. Levantou-se enquanto o marido dormia sonhando com novas exigências. E descalça, para não fazer barulho, subiu a longa escada da torre, sentou-se ao tear.
Desta vez não precisou escolher linha nenhuma. Segurou a lançadeira ao contrário, e jogando-a veloz de um lado para o outro, começou a desfazer seu tecido. Desteceu os cavalos, as carruagens, as estrebarias, os jardins. Depois desteceu os criados e o palácio e todas as maravilhas que continha. E novamente se viu na sua casa pequena e sorriu para o jardim além da janela.
A noite acabava quando o marido estranhando a cama dura, acordou, e, espantado, olhou em volta. Não teve tempo de se levantar. Ela já desfazia o desenho escuro dos sapatos, e ele viu seus pés desaparecendo, sumindo as pernas. Rápido, o nada subiu-lhe pelo corpo, tomou o peito aprumado, o emplumado chapéu.
Então, como se ouvisse a chegada do sol, a moça escolheu uma linha clara. E foi passando-a devagar entre os fios, delicado traço de luz, que a manhã repetiu na linha do horizonte.
Marina Colasanti (1938) nasceu em Asmara, Etiópia, morou 11 anos na Itália e desde então vive no Brasil. Publicou vários livros de contos, crônicas, poemas e histórias infantis. Recebeu o Prêmio Jabuti com Eu sei, mas não devia e também por Rota de Colisão. Dentre outros escreveu E por falar em amor, Contos de amor rasgados, Aqui entre nós, Intimidade pública, Eu sozinha, Zooilógico, A morada do ser, A nova mulher (que vendeu mais de 100.000 exemplares), Mulher daqui pra frente, O leopardo é um animal delicado, Esse amor de todos nós, Gargantas abertas e os escritos para crianças Uma idéia toda azul e Doze reis e a moça do labirinto de vento. Colabora, também, em revistas femininas e constantemente é convidada para cursos e palestras em todo o Brasil. É casada com o escritor e poeta Affonso Romano de Sant'Anna.

Texto extraído do livro “Doze Reis e a Moça no Labirinto do Vento”, Global Editora , Rio de Janeiro, 2000, uma colaboração da amiga Janaina Pietroluongo, da longínqua Oxford.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Vídeo do Museu da Língua Portuguesa (SP)

Vídeo exibido no Museu da Língua Portuguesa em SP. Esse vídeo aborda de forma concisa a origem das línguas e se retém em especial na nossa. Quem narra é Fernanda Montenegro. Por enquanto eu não tive oportunidade de ir visitá-lo, mas, assim que eu for, passo as minhas impressões. Deve ser um espetáculo!

Acesse o site: http://www.museudalinguaportuguesa.org.br/